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Os Transtornos de Personalidade Narcisista,
Anti-Social e Histriônica, com freqüência, são
definidos pela medida em que diferem do Transtorno de Personalidade
Borberline.
Infelizmente, a crescente popularidade do diagnóstico de Borderline
nas duas últimas décadas transformou-o em algo semelhante
a um "cesto de lixo" da Psiquiatria - superutilizado e mal-empregado.
Os pacientes de diagnóstico confuso podem receber o rótulo
de "Borderline" à revelia.
Ao final dos anos 30 e ao longo dos anos 40, os clínicos começaram
a descrever certos pacientes não suficientemente doentes para
serem rotulados como Esquizofrênicos, mas demasiadamente perturbados
para um tratamento psicanalítico clássico. Os primeiros
colaboradores estavam observando uma síndrome "confusa"
que não se encaixava bem nas rubricas diagnósticas preexistentes.
Quando o termo Borderline apareceu pela primeira vez na literatura nos
anos 50 e 60, ele denotava claramente uma entidade e estava na "fronteira"
da Psicose ou, mais especificamente, da Esquizofrenia. Com o passar
do tempo e o acúmulo de dados de seguimento acerca do curso do
Transtorno de Personalidade Borderline, este passou a ser mais estreitamente
ligado aos Transtornos Afetivos do que à Esquizofrenia.
Grinker e colaboradores (1968) trouxeram algum rigor diagnóstico
à síndrome, com sua análise estatística
de aproximadamente 60 pacientes hospitalizados. Uma análise global
dos dados sugeriu a existência de quatro subgrupos de pacientes
fronteiriços (Borderline).
Esse pacientes pareciam ocupar um continuum desde a "fronteira
psicótica" até a "fronteira neurótica".
Os quatro subgrupos de
pacientes Borderline de Grinker são:
Tipo I - A Fronteira Psicótica:
a) comportamento não-adaptativo, inapropriado
b) problemas com o teste de realidade e o senso de identidade
c) comportamento negativo e raiva abertamente expressada
Tipo II - Síndrome Borderline Nuclear:
a) afeto negativo generalizado
b) envolvimento vacilante com os outros
c) raiva atuada
d) identidade inconsistente
Tipo III - Grupo como se:
a) tendência em copiar a identidade dos outros
b) destituído de afeto
c) comportamento mais adaptativo
d) relacionamentos sem autenticidade e espontaneidade
Tipo IV - Fronteira Neurótica:
a) depressão anaclítica
b) ansiedade
c) características neuróticas e narcisistas
Características
discriminantes de Transtorno de Personalidade Borderline, em ordem de
importância:
1) relacionamentos interpessoais intensos
e instáveis
2) comportamento auto-destrutivo crônico
3) temores de abandono crônicos
4) distorções cognitivas
5) impulsividade
6) fraca adaptação social
Grinker e seus colegas
também tentaram identificar determinantes comuns na Síndrome
Borderline, presentes independentemente do subtipo:
1) raiva como principal ou único
afeto
2) defeitos nos relacionamentos interpessoais
3) ausência de identidade consistente
4) depressão difusa
Gunderson e Singer (1975)
revisaram a literatura descritiva e delinearam seis características
básicas para um diagnóstico racional de pacientes Borderline:
1) afeto intenso de natureza predominantemente
de depressão ou raiva
2) impulsividade
3) adaptação superficial à situações
sociais
4) episódios psicóticos transitórios
5) uma propensão ao pensamento frouxo em testes projetivos ou
outras situações não-estruturadas
6) um padrão vacilante de relacionamentos que vai de uma extrema
dependência à superficialidade transitória
Embora Gunderson e Grinker primariamente
enfocassem critérios diagnósticos descritivos, Otto Kenberg
procurou caracterizar os pacientes desde uma perspectiva psicanalítica.
Utilizando uma abordagem combinada de psicologia do ego - relações
objetais, cunhou o termo Organização de Personalidade
Borderline para englobar um grupo de pacientes que apresentavam padrões
característicos de fraqueza egóica, operações
defensivas primitivas e relações objetais problemáticas.
Ele observou uma variedade de sintomas nesses pacientes, incluindo ansiedade
livremente flutuante, sintomas obsessivos-compulsivos, fobias múltiplas,
reações dissociativas, preocupação hipocondríaca,
sintomas conversivos, tendências paranóides, sexualidade
perversa polimorfa e abuso de substâncias.
Os critérios de
Kenberg para a Organização de Personalidade Borderline
são:
I) Manifestações inespecíficas
de debilidade egóicas:
a) falta de tolerância à ansiedade
b) falta de controle dos impulsos
c) falta de desenvolvimento de canais sublimatórios
II) Desvio para um pensamento de processo
primário
III) Operações defensivas
características da Organização de Personalidade
Borderline:
a) dissociação
b) idealização primitiva
c) formas arcaicas de projeção, especialmente identificação
projetiva
d) negação
e) onipotência e desvalorização
IV) Relações objetais internalizadas
patológicas.
Um problema comum enfrentado
pelo clínico é a diferenciação entre a Depressão
Caracterológica típica da Personalidade Borderline e o
Transtorno Depressivo. Veja as principais distinções:
I) Depressão Caracterológica
Borderline:
1) solidão
2) vazio
3) tédio
4) sentimento interior de maldade
5) raiva consciente
II) Transtorno Depressivo
1) perturbação do sono
2) perda de interesse em atividades que anteriormente produziam prazer
3) culpa
4) falta de energia
5) autodepreciação
6) perda de apetite
7) perda de libido
8) retardo psicomotor
Psicoterapia Individual
Os objetivos envolvidos na Psicoterapia
Individual de pacientes com Transtorno de Personalidade Borderline são
ambiciosos. Eles incluem o fortalecimento do ego, de modo que:
1) Tais pacientes possam melhor tolerar
a ansiedade e adquirir maior controle sobre os impulsos, integração
de representações dissociativas do self e do objeto.
2) Tenham uma visão coerente, sustentada e aperfeiçoada
de si mesmos e dos outros, e o firme estabelecimento de um introjeto
acolhedor-tranqüilizador.
3) A separação de figuras significativas para passar a
ser tolerada.
Não existe atalho para a realização
desses objetivos, que requerem trabalho intensivo prolongado. Até
que se modifique o mundo objetal interno desses pacientes, eles terão
pouco alívio da implacável miséria de sua existência.
Numa revisão da literatura sobre Psicoterapia intensiva, Waldinger
(1987) destilou as diversas abordagens técnicas de uma variedade
de clínicos em oito princípios básicos, consensualmente
valorizados:
1) Um contexto de tratamento estável,
estabelecendo horários fixos para as entrevistas, terminando
as sessões no tempo, mesmo que o paciente insista em continuar.
Estabelecer expectativas claras acerca do pagamento de honorários
e desenvolver uma política explícita quanto às
conseqüências da falta às sessões.
2) Evitar uma atitude terapêutica passiva, pois os pacientes borderline,
com freqüência interpretam erroneamente o silêncio
como uma falta de interesse ou mesmo maldosa privação
de apoio. A aliança é facilitada por maiores verbalizações
da parte do terapeuta.
3) Conter a raiva do paciente. O terapeuta deve manter uma postura terapêutica
em face às suas barragens verbais de desprezo e ódio.
Conter a raiva do paciente, com freqüência, requer que o
terapeuta tolere períodos de transferência psicótica.
4) Confrontar comportamentos autodestrutivos.
5) Estabelecer a conexão entre sentimentos e ações.
Os terapeutas devem procurar repetidamente por sentimentos, sempre que
se defrontam com um comportamento de atuação.
6) Colocar limites.
7) Manter o foco das intervenções no aqui-e-agora. Na
Psicoterapia do paciente borderline, a ação é a
transferência.
8) Monitorar os sentimentos contratransferenciais. Cada terapeuta tem
limites pessoais em relação à quantidade tolerável
de ódio e raiva. Se o terapeuta monitorar de perto os sentimentos
contratransferenciais, esse limite pode ser tratado de maneira construtiva,
ao invés de destrutiva. Por exemplo, o terapeuta poderá
utilizar terapeuticamente sentimentos contratransferenciais dizendo
ao paciente:
- "Tenho a impressão de que você está tentando
fazer com que eu fique com raiva de você, ao invés de ajudá-lo.
Vejamos se podemos entender o que está acontecendo".
Por outro lado, o terapeuta poderá ter de impor limites às
barragens verbais do paciente, baseado em reações contratransferenciais,
da seguinte maneira:
- "Realmente acho que não poderei continuar trabalhando
contigo se continuar a gritar comigo desse jeito. É importante
que você trabalhe no controle de sua raiva, de modo que possa
expressá-la sem gritar".
Os terapeutas devem ser genuínos
e reais com o paciente Borderline, caso contrário apenas aumentarão
a inveja do paciente em relação a ele.
O resultado da Psicoterapia com pacientes Borderline é sempre
incerto. Um estudo de casos completos, feitos por Waldinger e Gunderson
(1987), indicou que mesmo com terapeutas e analistas experientes, a
taxa de desistência da terapia é elevada. Aproximadamente
um terço de sua amostra realmente completou o tratamento.
Entretanto, essas pesquisas também sugeriram que os pacientes
que permanecem em tratamento derivam substancial melhora a partir dele.
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